Iris Mamier • Edelweiss Ramal • Anne Berit Petersen • Harvey Elder

Convite para um diálogo espiritual:uma perspectiva sobre Loma Linda

Edição especial

A Enfermagem Adventista

Duas experiências contribuíram para este artigo. Uma delas foi a perda da mãe idosa de uma de nossas colegas, pouco antes do final do ano letivo. Durante a hospitalização em um centro médico adventista, nossa colega se viu dividida entre o atendimento das demandas do trabalho e as necessidades de sua mãe. Acompanhando-a várias vezes ao dia, ela ficou chocada quando sua mãe morreu inesperadamente. Durante a internação, as necessidades médicas de sua mãe tiveram prioridade, e ela não teve a chance de explorar suas necessidades espirituais. Quando ela soube que dois de seus alunos de enfermagem haviam orado com sua mãe pouco antes de sua morte, ela encontrou consolo, entendendo que ela havia sido espiritualmente amparada antes de falecer.

A segunda experiência veio de uma pesquisa qualitativa realizada alguns anos atrás na Universidade Loma Linda.1 O primeiro autor pesquisou enfermeiros que trabalhavam com cuidados terciários agudos em busca de um significativo encontro que houvessem vivenciado envolvendo a espiritualidade no trabalho. Embora a maioria dos entrevistados tenha relatado experiências positivas ao oferecer cuidados espirituais, uma enfermeira da equipe expressou dúvidas sobre o preparo educacional que recebera em uma universidade adventista com relação ao seu papel como provedora de cuidados espirituais. Ela compartilhou que havia sido ensinada a oferecer uma oração (e uma massagem) durante as rondas noturnas. Isso não trouxe nenhuma dificuldade até ela começar a trabalhar em hospitais sem base alguma na fé. Um dia, ela se encontrou na desconfortável situação de ser repreendida por seu supervisor porque um paciente se queixou dela.

Essas duas situações justificam uma reflexão. Uma interação foi recebida como um precioso presente, lembrado com gratidão; enquanto a outra, no mínimo, provocou irritação no paciente e desânimo em uma enfermeira. Os alunos de enfermagem necessitam claramente ser capacitados com ferramentas que permeiem as necessidades espirituais dos pacientes em uma sociedade que apresenta uma diversidade de crenças. Como educadores, temos a responsabilidade de prepará-los para reconhecer pistas espirituais e ensiná-los a conduzir uma conversa espiritual em contextos variados de atendimento ao paciente. É necessário que os alunos se sensibilizem às possíveis armadilhas e aprendam a se conectar com pessoas de todos os tipos de forma que o paciente se sinta sempre respeitado e honrado. Portanto, a maneira como ensinamos os alunos sobre cuidados espirituais merece uma considerada preparação por parte do professor de enfermagem.

Os cuidados adventistas de saúde englobam uma abordagem holística, ou seja, uma abordagem que inclui a espiritualidade dos pacientes. Dado o legado de longa data dos cuidados de saúde adventistas, é fácil assumir que os profissionais de saúde que se formaram em escolas adventistas e que trabalham para instituições adventistas são, portanto, treinados nos cuidados espirituais. No entanto, há escassa literatura, além dos escritos de Ellen White, para profissionais médicos que explique claramente uma perspectiva adventista sobre o cuidado espiritual e como ele deve ser ensinado. Se, de fato, o cuidado espiritual é fundamental para os cuidados de saúde adventistas, uma discussão mais aberta sobre essas questões parece justificada.

O objetivo deste artigo é fornecer aos enfermeiros adventistas e educadores de enfermagem um guia prático para abrir uma discussão espiritual. No que se segue, analisamos dois encontros significativos nos evangelhos e extraímos conselhos de Ellen White em seu livro A ciência do bom viver para preparar o cenário. Refletindo sobre nossas próprias experiências e na sabedoria prática daqueles que nos orientaram, situamos essas ideias no contexto da prática interdisciplinar colaborativa da escola de saúde da Universidade Loma Linda e sugerimos que a combinação de experiência, pesquisa e orientação a partir de fontes inspiradas oferece uma perspectiva singular sobre como ensinar os enfermeiros a oferecer cuidados holísticos. Esperamos estimular mais o pensamento e a reflexão na prática e nas configurações acadêmicas.

Encontros bíblicos sobre cura holística

A vida e o ministério de Jesus exemplificaram como o cuidado espiritual é parte integrante do cuidado aos doentes. Sua abordagem ao curar dois homens paralíticos refletiu verdadeiros “cuidados pessoais integrais”, que relacionavam o bem-estar físico, mental e espiritual.

Cura em Betesda

João 5 relata a cura de um homem que era paralítico há 38 anos. Betesda, que significa “Casa da Misericórdia”, era um local de miséria concentrada em Jerusalém, onde multidões de doentes, cegos, coxos e paralíticos aguardavam cuidados e buscavam cura. Jesus deliberadamente visitou esse “hospital” em um sábado, sem a companhia de seus discípulos.2 Ele foi atraído por um homem já paralítico há muito tempo. Após quase quatro décadas de sofrimento, sentindo-se solitário, sem amigos e desencorajado, esse homem quase havia perdido toda a esperança. Para chamar a atenção do homem, Jesus inclinou-se, olhou em seus olhos e fez uma pergunta aparentemente óbvia, mas que levou o homem a compartilhar sua história: “Queres ser curado?”3 A resposta do homem nos informa o lamento de sua alma: “Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.”4 Sua expectativa de cura estava colocada em uma manifestação mágica supostamente resultante da entrada no tanque no momento certo. Ele não sabia com quem estava falando. Jesus então o convocou a fazer o impossível: “Levanta-te, toma teu leito e anda.”5 Empoderado por essas palavras, o homem obedeceu e foi curado. Ele rapidamente saiu daquele lugar e foi direto ao templo, ainda carregando seu leito, na intenção de louvar a Deus por sua recuperação.

Assim que o jubiloso homem chegou ao templo, os líderes judeus o confrontaram por quebrar o sábado. Segundo eles, ele estava em pecado novamente. Que decepção o homem deve ter sentido! Mas, naquele momento, Jesus iniciou um segundo encontro no templo: a segunda parte da cura! Referindo-se ao que realmente importava, Jesus compartilhou com o homem como ele poderia permanecer bem: “Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior.”6 Tendo experimentado a restauração física, o homem teve motivos para acreditar que Jesus tinha as melhores intenções e que seu conselho era importante.

A questão “o que o impede de ficar preso e desamparado novamente?” continua sendo relevante para nós hoje. O homem precisava de um poder externo suficientemente forte e confiável para mantê-lo longe do pecado, um poder que nós, cristãos, acreditamos que só pode vir de um relacionamento com Deus. O sucesso de programas estabelecidos sobre bases espirituais, como o Alcoólicos Anônimos e programas similares direcionados a outros vícios, atestam essa realidade. Eles têm sido bem-sucedidos porque ligam os pacientes a um “poder superior” e restabelecem valores espirituais.7

Assim que os líderes religiosos descobriram quem havia operado a cura, confrontaram Jesus severamente pelo fato de a cura ter sido operada no sábado. Jesus calmamente respondeu: “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também.”8 Aqui Jesus explica a amplitude dos cuidados espirituais: desde que os humanos escolheram desconfiar de seu Criador, Deus trabalha incansavelmente, especialmente no dia de sábado,9 para restaurar o relacionamento de confiança. Além disso, o Filho está fazendo o que Ele sabe que o Pai está fazendo; unindo-se ao Pai em Seu trabalho, como poderia fazer o contrário?10 Se Jesus agiu de acordo com as ações do Pai, nós também devemos nos concentrar nos sinais do trabalho de Deus na vida de um paciente. As necessidades espirituais podem se tornar evidentes por meio de expressões de inutilidade, vergonha, culpa, relações quebradas, desesperança etc., apontando para um desejo de perdão, aceitação, esperança e reconciliação. Essas expressões geralmente não serão evidentes, a menos que o profissional de saúde atenda primeiramente às necessidades físicas de forma empática e competente. Uma vez que elas tenham sido atendidas e a confiança estabelecida, os pacientes podem revelar quais as maiores preocupações que a doença lhes causa. O lamento expresso pela alma fornece orientação para os cuidados espirituais e/ou encaminhamento para especialistas da área (por exemplo, cuidados pastorais).

Cura em Cafarnaum

A segunda história, sobre o paralítico em Cafarnaum, é registrada em três dos quatro evangelhos: Mateus 9:1-8, Marcos 2:1-12 e Lucas 5:17-26. Esse homem paralítico estava tão indefeso que dependia da determinação e força de seus amigos para levá-lo a Jesus. Quando eles perceberam que era impossível cruzar a multidão, removeram parte do telhado da casa em que Jesus estava e baixaram seu amigo até a presença de Jesus. A miséria do homem era provavelmente agravada pelo estigma de ser um pecador abandonado por Deus,11 além da angústia mental e desesperança espiritual de uma condição física já devastadora. Portanto, as primeiras palavras de Jesus para ele foram recebidas como um bálsamo curativo: “Tem bom ânimo, filho; estão perdoados os teus pecados.”12

Esse caso é uma inspiração para nós. Por exemplo, ao perguntar aos pacientes como uma doença influenciou a forma como eles veem a si mesmos ou a Deus, não é incomum que os pacientes expressem remorso sobre suas escolhas passadas, culpa ou vergonha. Alguns atribuem sua doença a Deus como punição por atitudes erradas do passado. Tal compreensão de Deus torna muito difícil para a pessoa aflita imaginar que Deus os considerará com amor, em vez de desprezo e rejeição. A culpa e a vergonha, portanto, os separam do recurso mais valioso que de outra forma poderiam obter: refúgio na presença amorosa de um Deus perdoador que os conhece pessoalmente e os acolhe em um relacionamento confiante com Ele. Para o homem paralítico, a garantia do perdão de Jesus lhe assegurou que Deus não o havia rejeitado, pelo contrário, Ele o amava infinitamente.

Com uma identidade renovada como filho amado de Deus, seu senso de autoestima foi restaurado, o homem começou a experimentar a cura emocional e espiritual. Portanto, quando Jesus falou as poderosas palavras “Levanta-te, toma teu leito e anda”,13 o homem foi transformado por inteiro: espiritual, física e mentalmente. O que foi considerado um ato blasfemo pelas autoridades religiosas na realidade revelou o poder e a autoridade divinas de Jesus como o Filho do Homem, evidenciados pela restauração da saúde física daquele homem.

Aplicação aos cuidados de saúde modernos

Em ambos os casos, Jesus é retratado como um cuidador espiritual. Não importa se esses homens estavam ou não conscientes de suas necessidades espirituais antes de serem curados, ou se simplesmente demonstraram que precisaram de cura física e esperança, Jesus os observou de maneira completa, Ele conectou-se a eles autenticamente e trabalhou para restaurá-los, não apenas física, mas espiritual e mentalmente.

As necessidades espirituais podem se tornar evidentes por meio de expressões de inutilidade, vergonha, culpa, relações quebradas, desesperança etc., apontando para um desejo de perdão, aceitação, esperança e reconciliação. Essas expressões geralmente não serão evidentes, a menos que o profissional de saúde atenda primeiramente às necessidades físicas de forma empática e competente.

Como provedores adventistas de cuidados de saúde, somos lembrados de que o Espírito Santo trabalha na vida dos pacientes antes, durante e depois de nosso encontro com eles. Nossa experiência e percepção de um paciente e sua situação é limitada. Em contraste, Deus conhece a história da vida e a necessidade de cada um. À medida que os enfermeiros tomam consciência das necessidades espirituais dos pacientes e respondem a elas, eles, em essência, passam a pisar em “terreno sagrado”.14 Ao seguir o modelo de Jesus, os enfermeiros buscam evidências do trabalho de Deus na vida do paciente. Liberados de qualquer agenda e guiados pelo Espírito Santo, ouvem o lamento da alma, sentindo empatia e validando as necessidades subjacentes. Os enfermeiros não podem forçar esse processo, nem devem ser forçados a sentir que seu principal dever é a restauração espiritual e a salvação do paciente. Em vez disso, os enfermeiros podem garantir que estejam pessoalmente atentos ao Santo Espírito entregando-se a Deus e submetendo-se à orientação Dele. O fundamento da assistência espiritual, portanto, consiste em uma conexão com Deus por meio da oração e do estudo de Sua Palavra para detectar as necessidades vividas e, às vezes, disfarçadas dos pacientes. Esse foi o método de Jesus e pode ser o nosso.

O exemplo de Jesus na cura dos paralíticos também demonstra que o cuidado espiritual não consiste em debater doutrina, mas em revelar o amor do Pai. Ellen White diz o seguinte: “Ao pé do enfermo, não se deve dizer nenhuma palavra relativa a credos ou pontos controvertidos. Que o sofredor seja encaminhado Àquele que está disposto a salvar a todos quantos a Ele vão ter com fé. Esforçai-vos zelosa e ternamente por ajudar a alma que paira entre a vida e a morte.” 15

A promessa para uma abordagem adequada de cuidados espirituais é prometida a todos os que pedem. “O Salvador está disposto a ajudar a todos quantos O invoquem em busca de sabedoria e discernimento. E quem mais necessita de sabedoria e clareza de ideias do que o médico, de cujas decisões tanto depende? Que aquele que está procurando prolongar a vida olhe com fé em Cristo para que Ele lhe dirija cada movimento. O Salvador lhe dará tato e habilidade no lidar com os casos difíceis.”16

Como ensinamos isso?

Educadores adventistas da área de enfermagem orgulham-se por formar profissionais de saúde competentes e qualificados. Deixamos pouco para o acaso. Os currículos são projetados para abordar todos os aspectos da saúde física e mental. Como educadores, somos intencionais sobre o que ensinamos na sala de aula. Nos ambientes de prática, testamos e avaliamos o conhecimento e as habilidades dos alunos e acompanhamos cuidadosamente os resultados do programa. Também colocamos muito esforço para nutrir a espiritualidade dos alunos. Esse investimento baseia-se na convicção de que a vida espiritual do aluno e o relacionamento pessoal com Deus moldarão todos os aspectos do seu futuro, inclusive sua prática profissional.

Portanto, os alunos das faculdades e universidades adventistas fazem, no mínimo, uma disciplina de religião por ano em sua educação profissional. Acreditamos que, à medida que a consciência espiritual e a experiência de fé de um graduado crescerem, eles serão mais sensíveis às necessidades espirituais dos outros. No entanto, devemos perguntar: “Será que o fato de nossos alunos serem capacitados a fornecer cuidados integrais à pessoa é suficiente? Terão eles as habilidades necessárias para iniciar uma conversa sobre as necessidades espirituais dos pacientes? Quais estruturas, ferramentas e princípios podemos fornecer aos enfermeiros sobre os quais eles possam se apoiar para orientar sua prática?” O cuidado espiritual é uma arte, e, assim como o desenvolvimento de outras habilidades e competências de enfermagem, seus princípios se aplicam tanto aos novatos como aos especialistas.17

Abordagens exploradas na Universidade Loma Linda

Os acadêmicos da Universidade Loma Linda têm lutado com essas questões. O Dr. Harvey Elder e o Dr. Wil Alexander18 investigaram especificamente como podemos transformar uma arte, inspirada pelo Espírito Santo, em princípios práticos e aplicáveis pelos alunos na forma de habilidade, confiança e competência. A abordagem deles foi pioneira no cuidado holístico de pessoas na Escola de Saúde da Universidade Loma Linda e inspirou inúmeros prestadores de cuidados de saúde nas últimas décadas por meio de oficinas e rotinas de visita aos pacientes.

Cuidados espirituais no contexto do cuidado integral da pessoa. Em vez de reduzir o paciente a um processo de doença, a abordagem integral de cuidados à pessoa busca entender os pacientes como pessoas com suas próprias histórias e em suas complexidades físicas, emocionais, relacionais e espirituais. O núcleo espiritual é visto como a dimensão integradora de todas as outras dimensões da personalidade. Com base em mais de quatro décadas de cuidados a pacientes portadores de HIV/aids, o Dr. Elder refletiu amplamente sobre abordagens práticas embasadas na Bíblia para ensinar técnicas de cuidados espirituais aos profissionais cristãos da área da saúde.19 Ele recomenda que os educadores incentivem os alunos a seguir uma série de passos em sua prática. Esses passos incluem (1) pedir ao Espírito Santo paixão, amor e cuidado genuínos para com os pacientes; (2) permanecer comprometido em escutar e ouvir o que os pacientes e o Espírito Santo dizem; e (3) incentivar os pacientes a contar suas histórias, ficando atento para perceber a “angústia do seu choro” ou a dor associada às suas experiências. Após o paciente compartilhar sua história, ele aconselha os profissionais de saúde a fazer perguntas que conduzam a um diálogo espiritual. Neste momento, compartilhamos uma abordagem prática para solicitar e ouvir temas espirituais que tenham sido utilizados na Universidade Loma Linda.

Treinamento aplicado à prática de cuidados espirituais. Nos últimos dez anos, o Dr. Harvey Elder e a Dra. Carla Gober-Park, com o Centro de Vida Espiritual e Integral da Universidadae de Loma Linda (www.religion.llu.edu/wholeness), têm realizado várias oficinas de cuidados espirituais para profissionais da saúde. Essas oficinas geralmente envolvem um estágio nas unidades de cuidados ao paciente das instalações médicas da Universidade Loma Linda. O objetivo é promover uma conversa espiritual com pacientes que estão dispostos a conversar com um grupo de dois a três profissionais de saúde. A enfermeira encarregada da unidade fornece orientação sobre quais pacientes podem ser abordados. Ao entrar no quarto de um paciente, o grupo se apresenta como profissionais de saúde que não fazem parte da equipe de tratamento, mas que participam de uma associação. O líder da prática informa ao paciente que o grupo quer aprender a ouvir realmente e pergunta se ele está disposto a conversar com eles. Se o paciente não aceita, o grupo o cumprimenta, desejando-lhes melhoras, e sai do quarto. Se o paciente concorda em conversar com o grupo, o líder do grupo pergunta se eles podem se sentar enquanto conversam. A ideia é evitar uma postura de olhar o paciente de cima para baixo durante a conversa. O líder do grupo prossegue dizendo: “Se, em qualquer momento, você se sentir desconfortável e não quiser continuar a conversar conosco, apenas diga ‘Estou cansado!’ e sairemos.” Essas simples etapas práticas são importantes para estabelecer o consentimento e dar ao paciente controle sobre a interação.

Durante a oficina, os participantes recebem uma sequência de perguntas para orientar a conversa. A equipe escolheu as perguntas a seguir na busca pela eficácia ao evocar conversas espirituais substanciais e significativas:

  1. Há quanto tempo você tem [ou está convivendo com] essa doença?
  2. O que mais o preocupa sobre sua doença?
  3. De onde você tira forças?
  4. Como essa experiência mudou a maneira como você se vê?
  5. Como essa experiência afetou a visão que você tem de Deus, de Seu grande poder e da vida?

A pergunta inicial “Há quanto tempo você tem essa doença?” direciona a conversa para a experiência do indivíduo com a doença em vez de para os detalhes de seu diagnóstico. Ela permite que o paciente revele muito ou pouco do que eles querem sobre sua história médica. Eles podem reorientar a questão para um período determinado. Por exemplo, durante uma conversa, uma mulher de meia-idade nos contou que sofreu um acidente vascular cerebral durante a lua de mel em uma casa flutuante num estado vizinho. Ela então revelou a sensação de gratidão que sentiu por seu marido haver providenciado a ajuda médica de que precisava e por seu apoio durante essa provação.

A segunda pergunta “O que mais o preocupa sobre sua doença?” tem o objetivo de explorar o principal lamento do paciente ou sua “queixa principal”. É fácil para os enfermeiros, assim como para outros profissionais da saúde, assumir que conhecemos as principais preocupações do paciente. No entanto, essa pergunta tem revelado repetidamente que a principal preocupação do paciente não está necessariamente relacionada ao seu diagnóstico ou plano de tratamento. Percebemos que é possível que um enfermeiro atravesse um turno completo e ignore a principal fonte de sofrimento do paciente. Por exemplo, quando fizemos essa pergunta em uma conversa com um musculoso jovem que estava sentado em sua cama, sua resposta foi: “Será que Deus me perdoará?” Sem o conhecimento do grupo, ele estivera envolvido em uma briga com tiros e perdera sua perna, mas, em vez de se concentrar em seu sofrimento físico imediato ou em sua perda, seu sofrimento interior era uma onda silenciosa de culpa e condenação. Surpreendentemente, quando convidado a falar, ele transmitiu instantaneamente seu lamento espiritual.

Esse modelo de pesquisa então introduz uma pergunta sobre a(s) fonte(s) de força e/ou apoio do paciente: “De onde você tira forças?” E o paciente geralmente se refere ao seu sistema de apoio: família, amigos ou colegas. Alguns mencionam a igreja, um clube ao qual pertencem ou uma pessoa em particular. Deus pode ou não estar nesse quadro. Uma pergunta complementar pode aprofundar o assunto ainda mais: “Você tem uma herança religiosa ou uma comunidade de fé que seja relevante para você?” E em seguida: “Essa é uma fonte de apoio para você agora?”

Ao acompanhar o Dr. Elder em uma clínica de HIV/aids enquanto ele observava um homem com sarcoma de Kaposi, tornou-se evidente que o paciente não estava tomando seus medicamentos antirretrovirais. Durante sua interação, o Dr. Elder perguntou ao paciente sobre sua herança religiosa, e ele explicou que havia crescido em uma denominação protestante, mas descobriu que Deus não gostava dele por causa do estilo de vida que ele havia escolhido. Esse encontro ilustrou como as crenças espirituais subjacentes (por exemplo, culpa, sentimentos de inutilidade, uma imagem de um Deus punitivo) podem ter um impacto significativo na tomada de decisões de saúde do paciente (por exemplo, adesão à medicação). Nesse caso, a dimensão espiritual foi fundamental para entender por que esse paciente havia deixado de cuidar de si mesmo, e a abordagem espiritual do paciente foi vital para a eficácia do tratamento.

Do mesmo modo, quando os pacientes se identificam como ateus ou agnósticos, geralmente há uma história por trás, muitas vezes uma decepção com uma pessoa religiosa em particular ou grupo de fé que explica por que desistiram completamente de Deus. No entanto, os pacientes podem achar terapêutico ter a oportunidade de compartilhar isso sem ser julgados. Ao mesmo tempo, os pacientes que são crentes podem apreciar compartilhar como a fé os ajuda a lidar com os desafios da vida, proporcionando aos profissionais de saúde a oportunidade de confirmar essa fé.

A quarta pergunta é: “Como essa experiência mudou a maneira como você se vê?” Essa pergunta permite aos pacientes refletir sobre como a experiência da doença os afetou pessoalmente. Diante da sua própria vulnerabilidade, eles podem afirmar: “Sempre me senti forte e independente. É assustador me tornar tão fraco e desamparado de repente!” Ou: “Depois deste período, tenho medo de me tornar um fardo para minha família!” Ambas as respostas afirmam que o senso de autoestima do paciente foi abalado, refletindo o paradigma: “Eu só tenho valor quando sou forte, quando sou um membro produtivo da família ou da comunidade.” Não é raro que as experiências de doenças gerem perguntas sobre o rumo da vida, sua finalidade e seu significado. Tornar-se vulnerável e receber atenciosos cuidados médicos e de enfermagem pode levar a uma perspectiva renovada sobre a vida e sobre o que é realmente importante.

Finalmente, dependendo de se o indivíduo revelou ou não uma crença em Deus, podemos continuar perguntando: “Como essa experiência afetou a visão que você tem de Deus ou qual o significado máximo da vida para você?” Esta pergunta detecta abertamente a concepção ou imagem de Deus e as questões existenciais do paciente. Tais crenças têm o potencial de moldar fortemente a experiência da doença. Em um estudo destinado a explorar o enfrentamento religioso, Kenneth Pargament20 pesquisou 310 membros de igrejas cristãs seis semanas após a tragédia do atentado de Oklahoma. Usando a análise fatorial, as crenças religiosas subjacentes foram categorizadas como “úteis” ou “nocivas”. Embora a situação útil se baseasse em apoio espiritual e reenquadramento religioso benevolente, a nociva caracterizava-se pela dor e turbulência religiosas, pelo descontentamento com Deus, com a igreja e pelo enquadramento de eventos negativos da vida como castigo de Deus. Pargament descobriu que aqueles que se envolveram principalmente em situações religiosas úteis sustentavam crenças benéficas sobre Deus e cresciam espiritual e psicologicamente em decorrência dessa difícil situação da vida, enquanto a situação religiosa negativa estava associada a mais insensibilidade aos outros.

Para os pacientes que as recebem, essas cinco questões podem gerar conversas substanciais e significativas que validam suas experiências. A sequência de perguntas não foi projetada como uma estrutura rígida, mas como um guia para orientar a conversa em uma direção significativa. Com base em nossa experiência, os pacientes e/ou membros da família apreciam ter uma atenção integral dos profissionais de saúde. Isso, por si só, pode ser experimentado como um presente e como terapia.

Quando os pacientes nos agradecem pela oportunidade de conversar com eles, sabemos que a conversa teve algum significado. No entanto, muitas vezes a bênção vai em ambas as direções. Por esse motivo, o líder dessa prática sempre agradece ao paciente e/ou ao membro da família por compartilhar suas experiências com o grupo. Se for considerado apropriado, também podemos perguntar: “Você gostaria que orássemos com você antes de sair?” Não somente acreditamos que é imperativo que os pacientes deem autorização antes de orar com eles, mas também recomendamos proferir a oração de tal forma que o paciente saiba que ela não é feita em função da necessidade dos profissionais de saúde. As palavras proferidas devem manter o foco no paciente e no que seria de ajuda para ele. A alternativa “Posso orar por você?” corre o risco de colocar o paciente em uma situação em que ele fique preocupado em decepcionar ou ferir os sentimentos de um profissional de saúde bem intencionado. Recomendamos frases que permitam ao paciente dizer: “Não, obrigado, eu não acho que isso seria útil para mim.” Sabedores de que a oração é uma prática íntima, pessoal, bem como comunitária, também recomendamos um trabalho de reconhecimento acerca das religiões e as diversas tradições de fé do mundo21 para possibilitar uma sintonia com a origem do paciente. Se solicitada, ou bem aceita pelo paciente, uma pequena oração como a seguinte pode ser útil:

Querido Deus, obrigado pelo privilégio de conversar com a D. Maria. Ela é sua filha amada. Obrigado por estar com ela ao longo desses tempos difíceis. Nós Lhe agradecemos por ela estar se recuperando de sua cirurgia e também porque seu filho tem sido tão solidário durante essa experiência [mencione coisas que o paciente disse serem importantes]. Por favor, esteja com ela ao se dirigir à reabilitação amanhã [inclua as preocupações específicas ou pedidos que o paciente tenha mencionado]. Abençoe-a, Senhor, e continue a conceder-lhe a cura e a Sua paz. Em nome de Jesus, amém.

Uma vez que o grupo tenha deixado a sala do paciente, o líder da prática deve levá-los para um cantinho calmo ou uma pequena sala de conferências para debater a experiência. Essa é uma parte essencial do estágio, pois o aprendizado pode ocorrer após o encontro com o paciente. O líder do estágio e o grupo refletirão sobre o que ouviram e observaram e discutirão as informações que surgiram ou perderam. As perguntas que podem ser feitas ao grupo são: como a pessoa que fez as perguntas se sente? Quais as necessidades espirituais identificadas pelo paciente? Deveria haver um encaminhamento ou acompanhamento? Esse processo de esclarecimento permite que alunos e participantes identifiquem temas espirituais emergentes. Essas sessões também oferecem oportunidade para confirmar as forças individuais dos participantes, ter um feedback e sugerir abordagens alternativas. Elas também fornecem uma estrutura com a qual se pode avaliar a própria eficácia.

Pensamentos finais

As duas histórias no início deste artigo ilustram que atender às necessidades espirituais expressas pelos pacientes é o que impulsiona qualquer cuidado espiritual. Enquanto no primeiro caso o apoio espiritual permitiu que a paciente morresse tranquilamente e ter conhecimento disso consolou a filha enlutada, no segundo caso suscitou preocupações, pois a oração foi feita sem avaliação prévia ou consideração do contexto.

Percebemos que o contexto em que a oração ou qualquer outro cuidado espiritual é oferecido é importante: o enfermeiro conectou-se genuinamente com o paciente? Avaliou e explorou as necessidades holísticas do paciente? E, fundamentalmente, a intervenção espiritual atende às reais necessidades expostas pelo paciente? As perguntas propostas que sugerem uma conversa espiritual podem fornecer uma orientação útil. A arte de captar dicas espirituais pode ser melhor ensinada em ambiente clínico, em encontros de pacientes em grupos pequenos, seguidos de reuniões subsequentes ou pós-conferências.

Concluindo, ao vivenciar cuidados espirituais e ensinar os alunos a se tornarem cuidadores espirituais, faríamos bem em comunicar uma profunda alegria e o senso de chamado que vem do envolvimento intencional nesse trabalho sagrado. À medida que nos tornamos cada vez mais sintonizados com a oportunidade única e o privilégio que os enfermeiros têm em “pisar um terreno sagrado”, lembramos que a postura e verdade mais poderosas a partir das quais podemos abordar nossos pacientes é vê-los como filhos amados de Deus. Esse amor é transformador: “O amor difundido por Cristo por todo o ser é um poder vitalizante. Todo órgão vital – o cérebro, o coração, os nervos – esse amor toca, transmitindo cura. Por ele são despertadas para a atividade as mais altas energias do ser. Liberta a alma da culpa e da dor, da ansiedade e do cuidado que consomem as forças vitais. Vêm com ele serenidade e compostura. Implanta na alma uma alegria que coisa alguma terrestre pode destruir – a alegria no Espírito Santo –, alegria que comunica saúde e vida.”22 Esse é o resultado ideal dos cuidados espirituais. Que por meio de nossas interações com os pacientes, eles experimentem esse amor vivificante e reconheçam o grande Médico operando em sua vida.


Este artigo foi revisado por pares.

Os autores reconhecem com apreciação as valiosas contribuições para este artigo do Dr. Harvey Elder, da Dra. Patricia Jones e da Sra. Adelaide Caroci Durkin.

Iris Mamier

Iris Mamier, PhD, MSN, RN, é professora associada no programa de doutorado (PhD) na Escola de Enfermagem da Universidade Loma Linda, Estados Unidos (Loma Linda University School of Nursing - LLUSN). A Dra. Mamier é doutora (PhD) pela Universidade Loma Linda, mestre em Educação em Enfermagem pela Universidade de Humboldt, Berlim, Alemanha, e completou sua graduação em enfermagem na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Ela exerceu e ensinou enfermagem em programas na Alemanha, Suíça e nos Estados Unidos e foi decana da Waldfriede School of Nursing, em Berlim, Alemanha. Nos últimos 15 anos, ela está envolvida em cuidados pessoais holísticos e cuidados espirituais de enfermagem a partir de uma perspectiva de ensino e de pesquisa prática e conceitual.

Edelweiss Ramal

Edelweiss Ramal, PhD, RN, é professora associada dos programas de pós-graduação em enfermagem da LLUSN. A Dra. Ramal é educadora da área de enfermagem há 40 anos, 25 dos quais serviu no México e em Botswana e 15, nos Estados Unidos.

Anne Berit Petersen

Anne Berit Petersen, PhD, MPH, APRN-CNS, é professora assistente no programa de pós-graduação da LLUSN. A Dra. Petersen trabalhou como educadora de enfermagem na China, Tanzânia, Etiópia e nos Estados Unidos. Ela completou um bacharelado em Inglês na Universidade Adventista de Washington, um bacharelado em Enfermagem na Universidade Andrews, um mestrado em Enfermagem e Saúde Pública na Universidade Loma Linda e um doutorado e pós-doutorado com bolsa de pesquisa pela Universidade da Califórnia, em São Francisco, Estados Unidos. Ela é apaixonada por capacitar enfermeiros em cuidados holísticos, e seu programa atual de pesquisa se concentra no controle do tabagismo e na prevenção de doenças não transmissíveis, tanto em nível local quanto global.

Harvey Elder

Harvey Elder, MD, graduado em 1957 pela Escola de Medicina da Universidade Loma Linda (Loma Linda University School of Medicine - LLUSM), completou residência em Medicina Interna na Universidade da Califórnia, em São Francisco, e no San Francisco General Hospital. Ele também completou o fellowship em doenças infecciosas na Universidade Harvard. O Dr. Elder desenvolveu o programa de controle de infecção hospitalar no LLU Medical Center e no Jerry L. Pettis Memorial Veterans Administration Hospital, em Loma Linda. Ao longo das últimas três décadas, sua prática clínica se concentrou no atendimento de pessoas com HIV e aids. Ele foi pioneiro no tratamento holístico de pessoas pelos clínicos da LLU, ajudando os pacientes a encontrar força e coragem espirituais enquanto lidavam com os desafios relacionados à vida e à saúde.

Citação recomendada:

Iris Mamier, Edelweiss Ramal, Anne Berit Petersen and Harvey Elder, “Convite para um diálogo espiritual: uma perspectiva sobre Loma Linda,” Revista Educação Adventista 44:1 (Outubro–Dezembro 2017). Available at https://jae.adventist.org/pt/2018.2.5.

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. Iris Mamier, “Nurses’ Spiritual Care Practices: Assessment, Type, Frequency and Correlates.” PhD diss., Loma Linda University, 2009. ProQuest (AAT 3405316).
  2. Ellen G. White, O Desejado de todas as nações. Disponível em: https://egwwritings.org/?ref=pt_DTN.133¶=1813.848, p. 133-143. No capítulo 21, Ellen White descreve Jesus andando sozinho em aparente meditação e oração quando chega ao tanque de Betesda.
  3. João 5:6. Salvo indicação em contrário, todas as referências das Escrituras são retiradas da versão Almeida, Revista e Atualizada. Todos os direitos reservados.
  4. João 5:7.
  5. João 5:8.
  6. João 5:14.
  7. Barbara Stevens Barnum, Spirituality in Nursing: From Traditional to New Age, 2nd ed. (New York: Springer, 2003).
  8. João 5:17.
  9. Sigve K.Tonstad, The Lost Meaning of the Seventh Day (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009).
  10. João 5:19.
  11. John Mac Arthur, The MacArthur Bible Commentary (Nashville, Tenn.: Thomas Nelson, 2005).
  12. Mateus 9:2.
  13. Mateus 9:6.
  14. Henry Blackaby, Richard Blackaby e Claude King, Experiencing God: Knowing and Doing the Will of God (Nashville, Tenn.: B&H Publishing Group, 2008).
  15. Ellen G. White, Ciência do bom viver. Disponível em: https://egwwritings.org/, p. 39.
  16. Id., p. 38.
  17. Patricia Benner, “From Novice to Expert,” The American Journal of Nursing 82:3 (março de 1982): 402-407.
  18. Carla Gober-Park, Keith Wakefield e Brandon Vedder, A Certain Kind of Light (documentary). United States: Loma Linda University Health Center for Spiritual Life and Wholeness, 2015).
  19. Harvey Elder, Spiritual Care Workshop, Loma Linda University, janeiro 30-31, 2009.
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