Julián Melgosa

Comportamentos viciantes: uma tendência crescente

Edição especial

comportamentos viciantes

O assunto é sério. Alunos cristãos, que vêm de famílias com princípios, estão matriculados em escolas e faculdades adventistas e frequentam a igreja regularmente, estão em risco de dependência. Não só há o perigo da toxicodependência, mas do vício em produtos aceitáveis e acessíveis, como alimentos, internet ou jogos. Aqueles de nós que trabalham com jovens em ambientes educacionais têm frequentemente se relacionado com moços promissores e de bom coração que lutam com vícios comportamentais. Quando lhes é fornecido um ambiente acolhedor, eles derramam sua frustração com lágrimas e palavras hesitantes. Falam sobre sua incapacidade de parar ou reduzir seu comportamento, sentem pena de si e temem por seu futuro. Como educador, meu coração se quebra ao vê-los querendo se livrar dessa armadilha, querendo se sair bem na escola, agradar os pais e professores e ter sucesso acadêmico e profissional. Contudo, suas metas desejadas são bloqueadas por uma barreira comportamental aparentemente intransponível.

Dependências comportamentais, definidas como persistentes e recorrentes consequências problemáticas derivadas da prática de um vício comportamental particular,1 são um tema difícil e sensível, com muitas ramificações. Professores, diretores e outros funcionários da escola volta e meia se deparam com esse problema sem aviso e, consequentemente, sentem-se despreparados para interagir positivamente com crianças ou jovens adultos que lutam com isso. Alguns negam o problema ou mesmo o ignoram na esperança de que ele seja um soluço comportamental que vai passar com o tempo. Alguns se apressam em expressar mensagens de desaprovação: “Pode alguém colocar fogo no peito sem queimar a roupa?” (Provérbios 6:27, NVI).2 Outros logo perguntam: “Como você pôde entrar nessa enrascada?” Mas a verdade é que esses jovens não sabem por que eles entraram na confusão. Em vez disso, eles precisam desesperadamente saber como sair dela.

Como? Em vez de ficar olhando para o passado ou procurando por razões, jovens afetados pelo problema precisam de oportunidades para conversar com alguém que escute e esteja pronto para oferecer ajuda. Eles precisam de nossas orações e precisam que oremos com eles, uma oração contínua, incorporada na rotina diária. Eles também precisam de uma visão esperançosa. Professores, diretores, pais e amigos podem lembrá-los, com total convicção, de que Deus os entende e promete um futuro brilhante, mesmo que seja doloroso agora: “O Deus de toda a graça, que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido durante pouco tempo, os restaurará, os confirmará, lhes dará forças e os porá sobre firmes alicerces” (1 Pedro 5:10). Eles precisam ter a certeza de que podem confiar no seu Pai celestial: “Clame a mim no dia da angústia; eu o livrarei, e você me honrará” (Salmo 50:15). Promessas como essas encorajarão os jovens em sua luta com os vícios comportamentais, especialmente aqueles receptivos às Escrituras.

Eles também precisam de uma clara demonstração de amor e apoio. “No amor não há medo; pelo contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo” (1 João 4:18). Pais, professores, funcionários da escola e amigos podem sentir medo, e, é claro, o indivíduo preso no vício também sente medo. Mas, pela graça de Deus, devemos nos lembrar de que o amor lança fora o medo. Eles precisam de amor e precisam de apoio.

Orações, uma visão esperançosa e abundância de amor e apoio são suficientes? Podem até ser em alguns casos, mas muitos outros demandam intervenção adicional. E, como estes outros casos mostram, vícios comportamentais são complexos o suficiente para exigir ajuda especializada. É por isso que professores, diretores, pais e amigos muitas vezes precisam insistir em que o indivíduo busque tratamento de um especialista em saúde mental com conhecimento e experiência para tratá-lo com sucesso.

Esta edição especial da Revista é dedicada ao importante tópico dos vícios comportamentais, às vezes conhecidos como vícios não químicos. Nossa igreja tem preparado historicamente os jovens para evitar o vício em álcool, nicotina e outras drogas e, em geral, tem feito um bom trabalho.3 Entretanto, os vícios comportamentais têm surpreendido os educadores, e esse tipo de dependência tem se tornado um risco significativo com uma incidência considerável nas escolas, faculdades e universidades adventistas.4 Os autores apresentam uma descrição geral dos vícios comportamentais mais comuns, seus efeitos sobre a conduta e a dificuldade subsequente de quebrar hábitos que produzem obsessão, compulsão e sintomas de abstinência quando os comportamentos não são praticados.

Os artigos apresentados nesta edição discutem o tópico a partir de várias perspectivas. Meu artigo apresenta uma definição e o alcance do tema para a compreensão do vício comportamental. Austin C. Archer fala sobre as implicações neurobiológicas e espirituais, e Tron Wilder e Steven Baughman propõem estratégias para abordar a questão em toda a escola. E, para cada uma das formas mais comuns de dependência comportamental encontradas no ambiente educacional cristão, vários autores explicam como eles surgem e como podem ser abordados: comida (Leslie R. Martin e Shelly S. McCoy), jogos de internet (Linda L. Ivy), uso da internet (Mary E. Varghese e Carlos Fayard), pornografia (Brad Hinman) e exercício (Tammy Bovee e Amanda Gunn).

É nossa intenção que esta edição sirva como um instrumento para ajudar a equipe educacional a se tornar mais informada sobre o tema dos vícios comportamentais e fornecer uma boa introdução a cada forma de vício. Além disso, damos sugestões sobre como oferecer apoio e sobre que cuidados e medidas tomar quando diante de um aluno em necessidade. Acima de tudo, esta edição recomenda que nos preparemos para encaminhar os alunos ao profissional mais qualificado disponível. Com orientação divina e treinamento apropriado, a equipe educacional pode ter uma compreensão clara desse problema crescente, obter inspiração sobre como ajudar aqueles que lutam com o vício e receber empoderamento para agir em nome daqueles que precisam de ajuda.

Julián Melgosa

Julián Melgosa, PhD, é diretor associado de Educação da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em Silver Spring, Maryland, Estados Unidos. Ele atua como coordenador de Educação Superior e assessor para as Divisões Norte-Americana, Sul-Americana e Transeuropeia. O Dr. Melgosa também atua como editor associado da Revista Educação Adventista (edições internacionais).

Citação recomendada:

Julián Melgosa, “Comportamentos viciantes: uma tendência crescente,” Revista Educação Adventista 42:1 (Abril–Maio 2016). Available at https://jae.adventist.org/pt/2017.3.1.

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. American Psychiatric Association, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th. ed. (Washington, D.C.: American Psychiatric Association, 2013).
  2. As citações bíblicas da NVI pertencem à Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional. NVI® Copyright© 1973, 1978, 1984, 2011. Todos os direitos reservados.
  3. Adventist Recovery Ministries, North American Division of Seventh-day Adventists: http://www.adventistrecovery.org/article/33/resources/addiction-resources; Health Ministries: http://healthministries.com/search/node/addiction; Substance Abuse Special Issue, The Journal of Adventist Education 76:2 (dezembro de 2013/janeiro de 2014).
  4. Esta declaração é baseada em conversas com profissionais da educação e de saúde mental e no fato de que os alunos matriculados em escolas adventistas também representam a população em geral, já que o aumento da dependência comportamental está ocorrendo em todo o mundo. Existem estudos sobre a prevalência da dependência comportamental em vários países. Para obter informações adicionais, consulte: Steve Sussman, Lisha Nadra e Mark Griffiths, “Prevalence of the Addictions: A Problem of the Majority or the Minority,” Evaluation and the Health Professions 34:1 (março de 2011):3-56; Daria Kuss, Mark D. Griffiths e Jens F. Binder, “Internet Addiction in Students: Prevalence and Risk Factors,” Computers in Human Behavior 29:3 (maio de 2013):959-966; Kenneth Paul Rosenberg e Laura Curtiss Feder, eds., Behavioral Addictions: Criteria, Evidence, and Treatment, 1st. ed. (Cambridge: Academic Press, 2014) – é uma compilação editada de estudos da incidência de dependência comportamental em vários países. Veja também: Alexandre B. Laudet et al., “Characteristics of Students Participating in Collegiate Recovery Programs: A National Survey,” Journal of Substance Abuse Treatment 51 (abril de 2015):38-46; e Samuel R. Chamberlain et al., “Behavioral Addiction: A Rising Tide?” European Neuropsychopharmacology (agosto de 2015). DOI: 10.1016/j.euroneuro.2015.08.013.