Recurso | Tammy Shilling • Heather Verhelle • Julia Johnson

Programa on-line de educação em saúde vocal para professores

Como fonoaudióloga atuando há quase 30 anos, eu [TS] uso minha voz diariamente para interagir, me comunicar e tratar meus clientes. Ao longo de anos de uso contínuo da voz, nunca encontrei fraqueza, dor ou fadiga relacionada à minha voz. Mas, há aproximadamente sete anos, comecei a dar aulas no ensino superior e imediatamente notei secura na garganta, aumento de dor na garganta e dificuldade para projetar minha voz.

Os professores usam a voz diariamente como o mecanismo principal de sua ocupação, e os sintomas que experimentei são comuns. Vários fatores de risco para o desenvolvimento de distúrbios de voz incluem falar em um ambiente barulhento e condições de trabalho desfavoráveis, como mudanças de temperatura e ar seco, respiração e fonação ineficientes, estresse e tensão muscular.1 Um distúrbio de voz funcional ocorre quando a qualidade vocal, tom e o volume não atendem às necessidades diárias. Isso pode ser resultado do uso impróprio ou ineficiente do mecanismo vocal quando a estrutura física é típica (por fadiga ou tensão muscular) ou quando alterações físicas estão presentes no mecanismo vocal (como resultado de edema, nódulos ou alterações estruturais).2

Professores relatam que problemas vocais são prejudiciais à saúde física e emocional e contribuem para o absenteísmo e o baixo desempenho no trabalho.3 Da Costa et al. (2012)4 selecionaram aleatoriamente 237 professores de ensino fundamental e médio na Carolina do Norte para responder a perguntas sobre sua saúde vocal pessoal e dificuldades quanto ao tratamento. Os resultados indicaram que 22 por cento dos professores estavam roucos, 58 por cento experimentaram rouquidão, 23 por cento perderam o trabalho devido à rouquidão, 32,6 por cento procuraram ajuda profissional e 30 por cento acreditavam que rouquidão era comum para professores. Menos da metade conhecia a terapia de voz ou acreditava que um profissional poderia ajudar.

Pesquisas mostram que educar professores sobre fatores de risco, técnicas de respiração, repouso vocal adequado e obtenção de ressonância adequada melhora a sua qualidade de vida (ver Quadro 1 para recomendações de boas práticas). Aparecida et al. (2015)5 descobriram que os professores estavam muito interessados em aprender como melhorar sua voz, mas apenas uma fração dos professores buscava ajuda para seus distúrbios vocais.

Pesquisas sobre a eficácia de programas de saúde vocal com professores encontraram melhora da consciência vocal e da qualidade de vida6 e menos episódios relatados de problemas vocais.7 Pomaville, Tekerlek e Radford8 examinaram mudanças comportamentais em professores que concluíram um curso de educação em saúde vocal. Os participantes relataram uma diminuição na fadiga vocal quando receberam mais educação sobre os efeitos da hidratação, cafeína, ingestão de álcool, respostas à irritação da laringe e uso excessivo da voz. Estudos recentes foram realizados nos Estados Unidos e internacionalmente, incluindo Bélgica,9 Brasil,10 Kuwait e Jordânia.11

Embora existam evidências comprovadas da prevalência e do risco de distúrbios vocais entre professores, a educação em saúde vocal geralmente não está incluída na capacitação dos professores. Percebendo os tremendos benefícios de tais programas para professores, a Escola de Ciências da Comunicação e seus Distúrbios, da Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos, decidiu contribuir com sua experiência para esta área de interesse crescente para que mais professores possam desfrutar de saúde vocal prolongada durante toda a sua carreira docente.

A fim de fornecer um programa de educação em saúde vocal prontamente disponível para professores, dois alunos de pós-graduação da universidade, Julia Johnson e Heather Verhelle, ajudaram na concepção e desenvolvimento de um curso on-line de educação em saúde vocal individualizado usando a plataforma da Comunidade Adventista de Aprendizagem. O curso tem como objetivo fornecer medidas preventivas para ajudar os professores a cuidar de sua voz e desenvolver estratégias de uso saudável da voz para que possam prosperar em sua carreira e melhorar sua qualidade de vida.

Criando um curso de educação em saúde vocal

Métodos de pesquisa anteriores foram examinados em detalhes para criar um programa de educação em saúde vocal para professores de ensino fundamental e médio. Os métodos de sucesso incluíram treinamento indireto (palestras sobre função vocal, cuidados com a voz e fatores de risco) e treinamento direto (treinamento pessoal com exercícios práticos). Os programas de educação em saúde vocal na literatura incluem vários métodos e conteúdos de ensino, como vídeos de demonstração, listas de verificação de autorrelato e questionários, palestras, técnicas de suporte respiratório adequadas para produção de voz, bem como técnicas de ressonância e eficiência vocal.12

Um curso on-line individualizado foi desenvolvido para atingir um grande público de professores. O curso “Conscientização Vocal para Professores: Quando Alguma Coisa Vai Mal com Sua Voz” pode ser acessado por qualquer pessoa que crie uma conta gratuita com a Comunidade Adventista de Aprendizagem (link para o curso: https://www.adventistlearningcommunity.com/courses/voz-consciência-para-professores-quando-algo-dá-errado-com-sua-voz-a-pr). O curso consiste em nove módulos:

  1. Conscientização Vocal para Professores
  2. Anatomia da Laringe
  3. A Laringe em Ação
  4. Nódulos Vocais e Fadiga Vocal
  5. Comportamentos Vocais de Risco
  6. Como Posso Saber se Há Algo Errado com Minha Voz? O que Posso Fazer sobre Isso?
  7. Educação em Saúde Vocal
  8. Voz Ressonante
  9. Conclusão

Cada módulo inclui resultados de aprendizagem, uma introdução, slides de PowerPoint com narração de áudio, vídeos curtos, leituras designadas, questionários interativos, autoavaliações e atividades de aprendizagem adicionais e materiais de aprendizagem (em formato PDF). Ao longo do curso, os participantes recebem estratégias para refletir e autoavaliar seu uso vocal e técnicas de ensino em sala de aula para melhorar o cuidado e o uso eficiente da voz. Um certificado após a conclusão com 0,5 CEUs ganhos é fornecido para todos os participantes.

Feedback do participante

Um pequeno grupo de professores do ensino fundamental e médio, fonoaudiólogos, alunos de graduação em Fonoaudiologia e alunos-professores concluíram o curso. Os participantes avaliaram a eficácia do curso em uma escala Likert de 5 pontos. Os resultados revelaram que aproximadamente 90% dos participantes acharam o curso “muito eficaz” ou “extremamente eficaz” e mais de 80% dos participantes relataram que seu conhecimento sobre como a voz funciona e a saúde vocal aumentou significativamente após a conclusão do curso.

Perguntas abertas qualitativas permitiram que os participantes fornecessem feedback e sugestões adicionais para o curso. Quando questionados sobre quais recursos fornecidos no curso foram mais benéficos, vários participantes relataram “vídeos e apostilas”, “anatomia e fisiologia da laringe”, “comportamentos de risco e recursos para incorporar uma boa higiene vocal” e “vídeos que demonstram a respiração e técnicas de voz”. Os participantes também foram questionados sobre quais técnicas de sala de aula e de voz eles provavelmente implementariam para concluir o curso. Algumas das respostas incluíram:

  • “exercícios de voz”;
  • “hidratação e aquecimento”;
  • “uso da voz ressonante nas aulas”;
  • “uso de métodos alternativos em vez da voz para atrair a atenção dos alunos”;
  • “aquecimentos e postura facial frontal”;
  • “escutar o corpo e a voz”;
  • “incorporar frequentes pausas para descanso vocal durante o dia”;
  • “atividades em grupo e menos palestras”.

Discussão

Este curso foi projetado e desenvolvido durante o auge da pandemia de Covid-19, e os comentários e sugestões fornecidos pelos participantes iniciais que concluíram o curso informaram revisões ao curso. Pesquisas futuras irão explorar o impacto do ensino virtual na voz. É necessário examinar as diferenças entre ensino remoto e presencial com relação à frequência do uso da voz, volume, tensão, esforço e fadiga vocal. Também é necessário entender se diferentes técnicas de saúde vocal são mais necessárias para o ensino a distância do que para o ensino presencial.

A Escola de Ciências da Comunicação e seus Distúrbios, da Andrews University, tem um plano estratégico para promover a educação em saúde vocal. Os benefícios da educação em saúde vocal afetam diretamente as habilidades de ensino, a saúde física e o bem-estar social e emocional de um educador. Procuramos apoiar a educação adventista auxiliando professores como usuários ocupacionais da voz e sua capacidade de fazer uma diferença positiva na qualidade de sua própria vida e profissionalmente à medida em que afetam a qualidade de vida de seus alunos.

Tammy Shilling

Tammy Shilling, MA CCC-SLP, é professora associada de Fonoaudiologia e diretora do Programa de Graduação na Escola de Ciências da Comunicação e seus Distúrbios, da Andrews University, em Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos. Antes de ingressar no corpo docente da Andrews University, ela atuou como fonoaudióloga por mais de 20 anos. Depois de obter o diploma de bacharel em Fonoaudiologia pela University of Kansas em Lawrence, Kansas, Estados Unidos, ela obteve o título de mestre em Fonoaudiologia pelo campus da University of Kansas Medical Center, em Kansas City, e atualmente está trabalhando em seu doutorado em Currículo e Instrução, na Andrews University.

Heather Verhelle

Heather Verhelle, M.S., graduou-se recentemente no Mestrado em Fonoaudiologia pela Escola de Ciências da Comunicação e seus Distúrbios da Andrews University e começou a trabalhar como pesquisadora clínica em uma instalação de enfermagem especializada em Michigan.

Julia Johnson

Julia Johnson, M.S., graduou-se recentemente no Mestrado em Fonoaudiologia pela Escola de Ciências da Comunicação e seus Distúrbios da Andrews University e começou a trabalhar como pesquisadora clínica no ambiente de reabilitação de adultos na Geórgia, Estados Unidos.

Citação recomendada:

Tammy Shilling, Heather Verhelle e Julia Johnson, “Programa on-line de educação em saúde vocal para professores,” Revista Educação Adventista 83:3 (2021). Disponível em: https://jae.adventist.org/pt/2021.83.3.7.

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. Evelyne Van Houtte et al., “The Impact of Voice Disorders Among Teachers: Vocal Complaints, Treatment-Seeking Behavior, Knowledge of Vocal Care, and Voice-Related Absenteeism,” Journal of Voice 25:5 (set. 2011): 570-575.  doi.10.1016/j.jvoice.2010.04.008.
  2. American Speech-Language-Hearing Association, “Definitions of Communication Disorders and Variations” [Relevant Paper] (1993). Disponível em: http://www.asha.org/policy/RP1993-00208/.
  3. Raquel A. Pizolato, “Impact on Quality of Life in Teachers after Educational Actions for Prevention of Voice Disorders: A Longitudinal Study,” Health and Quality of Life Outcomes 11:1 (fev. 2013): 28. doi.10.1186/1477-7525-11-28.
  4. Victor da Costa et al., “Voice Disorders in Primary School Teachers and Barriers to Care,” Journal of Voice 26:1 (2012): 69-76. doi.10.1016/j.jvoice.2010.09.001.
  5. Emilse Aparecida et al., “Knowledge About Voice and the Importance of Voice as an Education Resource in the Perspective of University Professors,” REVISTA CEFAC Speech, Language, Hearing Sciences, and Education Journal 17:1 (jan.-fev. 2015): 13-26. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcefac/a/wGxW3xTY9r4HFWHndq3WGhd/?lang=en&format=pdf.  
  6. Pizolato, “Impact on Quality of Life in Teachers After Educational Actions for Prevention of Voice Disorders: A Longitudinal Study.”
  7. Da Costa et al., “Voice Disorders in Primary School Teachers and Barriers to Care.”
  8. Fran Pomaville et al., “The Effectiveness of Vocal Hygiene Education for Decreasing At-risk Vocal Behaviors in Vocal Performers,” Journal of Voice 34:5 (set. 2020): 709-719. doi.10.1016/j.jvoice.2019.03.004.
  9. Van Houtte et al., “The Impact of Voice Disorders among Teachers: Vocal Complaints, Treatment-Seeking Behavior, Knowledge of Vocal Care, and Voice-Related Absenteeism.”
  10. Paulo Roberto et al., “Effectiveness of the Teacher’s Vocal Health Program (TVHP) in the Municipal Education Network of Campo Grande, MS,” Journal of Voice 32:6 (nov. 2018): 681-688. doi.10.1016/j.jvoice.2017.08.029.
  11. Sana A. Albustan et al., “Kuwaiti Teachers’ Perceptions of Voice Handicap,” Journal of Voice 32:3 (maio 2018): 319-324. doi.10.1016/j.jvoice.2017.05.003.
  12. Bernadette Timmermans et al., “Voice Training in Teacher Education: The Effect of Adding an Individualized Microteaching Session of 30 Minutes to the Regular 6-hour Voice Training Program,” Journal of Voice 26:5 (set. 2012): 669.e1-9. foi.10.1016/j.jvoice.2011.03.001.