Editorial | James C. Davis Jr.

A obra mais delicada

Como educador adventista, encontro-me frequentemente referindo-me ao livro Educação. Escrito em 1903 por Ellen G. White, o livro apresenta um modelo para a educação adventista que é tão revolucionário e relevante hoje quanto era há mais de 100 anos.

Ler o livro Educação pode suscitar muitas reações. Às vezes, de forma empolgante, faz-nos pensar com quem fazemos parceria e no que ela pode se tornar. Outras vezes, a seriedade da responsabilidade do educador pode suscitar sentimentos de inadequação. Por vezes, pode ser um desafio, isso faz com que os leitores reflitam sobre suas práticas profissionais e como elas podem ser ajustadas para melhor servir aos alunos e às famílias.

Algumas passagens podem causar confusão. Uma dessas passagens é encontrada na página 292. Descrevendo o ensino, lemos que “esta é a obra mais delicada e mais difícil que se tem confiado a seres humanos”.1 Passei um bom tempo refletindo sobre essa declaração. Ela pode parecer contraditória e confusa.

Não foi nada agradável o tempo que passei sentado em um escritório, por 20 minutos, enquanto uma mãe descontente gritava comigo e me acusava de não gostar de seu filho porque ela discordava de alguma disciplina que lhe havia sido aplicada. Certamente não foram agradáveis os momentos em que me reuni com famílias para que soubessem que seus filhos não poderiam voltar à escola devido às escolhas que fizeram. As horas gastas em reuniões de diretoria, reuniões de equipe e seminários de desenvolvimento profissional nem sempre foram prazerosas. Nada agradável foi trabalhar com policiais e assistentes sociais quando era necessário denunciar abusos e negligência. Fins de semana longos e cheios de atividades com pouco tempo para se recuperar antes de voltar para a escola na segunda-feira de manhã também não foram muito agradáveis.

Ser insultado e assediado pelos pais porque seus filhos não receberam a nota que eles gostariam não estava no topo da minha lista de coisas agradáveis. Os dias de enjoo por interagir com jovens com hábitos de higiene precários, com tosse e coriza também foram desagradáveis. A lista poderia continuar.

Em meus 24 anos servindo nas funções de professor de sala de aula, vice-diretor, diretor, supervisor, em internato e escola diurna, houve muitas experiências que eu não classificaria como boas. Esse pode ser o motivo pelo qual a frase citada anteriormente inclui a advertência, “a mais difícil”. Trabalhamos com pessoas, e as pessoas têm problemas. Trazemos nossos próprios problemas conosco.

Um trabalho desafiador

Se nos concentrarmos apenas nessas coisas negativas e nada agradáveis, pode ser difícil encontrar um motivo para continuar. Por mais fácil que seja ser consumido pelos elementos negativos, pelos desprezos e insultos, é essencial que reconheçamos os pontos positivos. Na verdade, devemos nos concentrar nos aspectos positivos para que possamos suportar as dificuldades. Quando você observa um aluno que está enfrentando problemas comportamentais começar a amadurecer e ganhar controle após horas de disciplina, orientação, redirecionamento e amor, isso é bom. Conduzir uma classe através de um assunto difícil, vendo a compreensão brotar em seus rostos é bom. Dar aulas ao lado de um ex-aluno que escolheu o ensino como carreira é gratificante. Construir conexões e relacionamentos genuínos para que os alunos se sintam seguros em vir até você com desafios em busca de conselhos é positivo. Ver seus alunos se levantarem da água no tanque batismal, entregando publicamente o coração a Cristo é emocionante. Ser convidado para formaturas, casamentos e dedicação de bebês dos alunos com quem você trabalhou é muito emocionante. Ver uma família inteira filiar-se à Igreja Adventista depois de matricular seus filhos na escola é bom. Ver seus alunos progredindo na escola para se tornarem bem-sucedidos em sua carreira é ótimo. Ter os alunos assumindo papéis de liderança dentro da igreja é uma afirmação. Existem muito mais coisas boas que poderiam ser listadas, e duas histórias dão forças para continuar.

Dois exemplos

Alguns anos atrás, eu estava trabalhando durante um fim de semana de ex-alunos do ensino médio. Era tarde da noite de sábado, e a maioria das pessoas havia deixado o campus. Um ex-aluno ainda permanecia no campus nos visitando. Esse aluno havia se formado alguns anos antes e, naquela época, estava mais do que pronto para ir embora, frequentemente expressando frustração e reclamações sobre a escola e os funcionários.

Durante a visita, ele relembrou seu tempo na escola e começou a listar todas as coisas de que havia gostado, os momentos divertidos que experimentou e como a escola era ótima. Eu perguntei se ele havia ficado triste quando se formou, e ele reconheceu que sim. Ele respondeu: “Às vezes não sabemos apreciar as coisas boas até que as percamos.” Apesar da maneira como havia tratado seus professores, estávamos causando um impacto sobre ele. Mesmo que não parecesse aparente na época, ele acabaria apreciando o que a equipe fez por ele e as oportunidades que recebeu. Aquilo foi ótimo.

Desde então, tenho examinado as reclamações dos alunos de forma muito diferente. Enquanto ainda as ouço e as ajusto conforme necessário, também considero como essas coisas serão percebidas após um período de tempo.

Alguns anos depois dessa experiência, tive notícias de outro aluno. Ele disse que estaria na cidade e queria dar uma passada por aqui. Esse era um aluno que havia tomado mais do que algumas decisões erradas e, por fim, foi convidado a se retirar da escola. Quando soube que ele estava saindo da escola, fui procurá-lo para uma breve visita. Eu queria que ele soubesse que, independentemente de seus erros, ele ainda era importante para nós e nos importávamos com ele.

Anos mais tarde, quando esteve em minha sala de estar, ele compartilhou o quanto isso havia significado para ele. Meu contato com ele o convenceu de que eu não o estava julgando. Ao continuarmos a visita, ele falou sobre a igreja que frequentava e as funções em que estava servindo. Ele compartilhou como havia encontrado seu caminho de volta para Cristo. Isso foi extremamente bom. Foi um momento de humildade, e só posso dizer: Louvado seja Deus por haver agido por meu intermédio naquela época!

Como educadores, é essencial que nos agarremos a essas ocasiões em que a cortina está aberta e tenhamos um vislumbre da diferença que estamos fazendo. Isso não acontece com muita frequência, e constantemente nos vemos questionando o quão eficazes somos. Esses breves momentos em que percebemos esse impacto podem nos encorajar enquanto lutamos durante tempos difíceis. Se continuarmos a ler o parágrafo completo do qual foi tirada a citação inicial, descobrimos: “Esta é a obra mais delicada e mais difícil que se tem confiado a seres humanos. Exige o mais delicado tato, a maior susceptibilidade, conhecimento da natureza humana e uma fé e paciência oriundas do Céu, dispostas a trabalhar, vigiar e esperar. É uma obra que nada sobrelevará em importância.”2

“Pais e professores tombam em seu último sono, parecendo o trabalho de sua vida ter sido feito em vão; não sabem que sua fidelidade descerrou fontes de bênçãos que jamais poderão deixar de fluir; apenas pela fé veem nas crianças que educaram tornarem-se uma bênção e inspiração a seus semelhantes, e essa influência repetir-se mil vezes mais.”

Educação, p. 306.

Posso assegurar-lhes que a Igreja Adventista tem muitos, muitos professores que se enquadram nessa descrição. É preciso muito tato e paciência para ouvir o desabafo de um pai, para evitar ficar na defensiva. Muitas vezes, apenas dar a oportunidade para que sejam ouvidos é o necessário para resolver a situação.

Os professores devem possuir uma compreensão da “natureza humana” para ajudar a redirecionar os alunos quando eles estão exibindo comportamentos inadequados. O conhecimento do funcionamento da mente humana ajuda a instruir e guiar as mentes jovens. Precisamos exercer fé, trabalhar, vigiar e esperar para ver os frutos de seu trabalho. Acredito que, em muitos casos, não saberemos totalmente como Deus atuou por meio de nós até chegarmos ao céu.

O que pode ser mais importante do que os jovens da Igreja Adventista do Sétimo Dia? Pode ser um pouco egoísta, mas acredito que a educação adventista é um dos ministérios mais importantes da igreja. Ellen White parecia apoiar essa crença.

Devemos continuar a colocar educadores que possuam tato, conhecimento da natureza humana, fé, paciência e disposição para trabalhar, vigiar e esperar em tantas escolas quanto possível. Devemos disponibilizar uma educação adventista a todos os alunos de nossas igrejas. Devemos olhar além disso e alcançar nossas comunidades, buscando famílias que precisam do amor de Cristo. Embora a educação possa ser extremamente difícil, também é muito gratificante. “É uma obra que nada sobrelevará em importância.” É certamente a obra “mais delicada”.


Adaptado com permissão. Originalmente publicado como “The Nicest Work” por James C. Davis Jr., na Outlook Magazine (março de 2021 on-line), uma publicação mensal da Mid-America Union Conference of Seventh-day Adventists, em Lincoln, Nebraska. Disponível em: https://outlookmag.org/the-nicest-work/.

James C. Davis Jr.

James C. Davis Jr., MA, é superintendente de Educação da Associação dos Adventistas do Sétimo Dia de Minnesota, em Spring Lake Park, Minnesota, Estados Unidos. Como um educador experiente, o Sr. Davis acumula vários anos de serviço como professor, administrador e especialista em tecnologia em escolas adventistas.

Citação recomendada:

James C. Davis Jr., “A obra mais delicada,” Revista Educação Adventista 83:1 (2021). Disponível em: https://jae.adventist.org/pt/2021.83.1.1.

NOTAS E REFERÊNCIAS    

  1. Ellen G. White, Educação (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 292.
  2. Ibid.